Estoque

O que fazer com peças paradas no brechó

Equipe Vestto9 min de leitura

Você sabe que tem peça encalhada. Sente no bolso, no aluguel da arara que não rende, na sensação de que entra mercadoria e o caixa não acompanha. O problema é que, na hora de decidir o que fazer com as peças paradas no brechó, quase ninguém consegue dizer com certeza quais são elas nem há quanto tempo estão lá. E você só age no encalhe se conseguir enxergá-lo. Esse é o nó. Vamos desatar por partes.

Peça parada é capital travado, não só espaço ocupado

Cada peça na arara representa dinheiro que você já gastou (no garimpo, na higienização, no tempo de cadastro) e ainda não recuperou. Enquanto ela não vende, esse dinheiro está preso ali, parado, sem virar outra peça que poderia girar mais rápido. Uma jaqueta de inverno que ficou encalhada até setembro não é só uma jaqueta na arara: é o dinheiro de duas ou três blusas leves que você poderia ter comprado para o verão.

Por isso girar estoque não é faxina, é gestão de caixa. Quanto mais rápido a peça vira venda, mais vezes o mesmo dinheiro trabalha para você ao longo do ano, e acompanhar o caixa do brechó mês a mês mostra se esse giro está mesmo virando saldo. Brechó que segura peça parada por orgulho ou teimosia ("vou conseguir o preço cheio") costuma estar financiando o próprio encalhe.

Primeiro, meça o tempo em estoque

Não dá para girar o que você não vê. Antes de remarcar nada, você precisa responder a uma pergunta simples: quais peças estão paradas e há quanto tempo? Aqui mora o problema do caderno e da planilha solta. Eles registram que a peça entrou, mas não te mostram, de relance, o que está há 60 ou 90 dias sem vender. Para descobrir, você teria que folhear página por página ou rolar a planilha inteira, e ninguém faz isso no meio do expediente.

O dado que importa é a data de entrada de cada peça. Com ela, você consegue calcular há quantos dias o item está disponível e ordenar o estoque do mais antigo para o mais novo. As peças do topo dessa lista são as suas candidatas a ação. Se você ainda registra tudo no improviso, vale revisar antes como organizar o estoque do brechó, porque sem registro de entrada confiável o resto deste artigo não tem em que se apoiar.

Faixas de tempo que valem como alerta

  • Até 30 dias: peça nova, dentro do esperado. Sem ação, só observe.
  • 30 a 60 dias: começa a pesar. Hora de melhorar foto, mudar de lugar na loja ou destacar no story.
  • 60 a 90 dias: encalhe formado. Entra remarcação progressiva.
  • Mais de 90 dias: peça travada. Combo, liquidação ou doação, mas não deixe parada mais um mês.

Remarque progressivamente, não de uma vez só

O erro comum é esperar a peça encalhar de vez e então jogar 50% de desconto de uma vez. Isso queima margem à toa: talvez 20% já resolvesse. A remarcação progressiva funciona melhor. Você baixa o preço em degraus, conforme o tempo passa, e deixa o mercado te dizer onde está o preço que vende. A peça que sai a 70% do valor depois de 60 dias ainda te dá lucro; a que você segura por orgulho até virar fora de moda sai de graça ou nem sai.

Defina uma regra e siga ela. Ter um gatilho fixo por dias parados tira a decisão do emocional e a transforma em rotina. A tabela abaixo é uma referência de mercado, não uma lei. Ajuste as faixas e os percentuais ao seu giro, ao seu ticket médio e ao tipo de peça (uma peça de marca aguenta mais tempo e desconto menor que uma fast fashion básica).

Gatilho de remarcação por dias parados (referência, ajuste ao seu brechó)
Dias paradaSituaçãoAção sugeridaDesconto de referência
0 a 30Peça novaNenhuma; só acompanharPreço cheio
31 a 60EsfriouNova foto, novo lugar, destaque no canal0% a 10%
61 a 90EncalhandoPrimeira remarcação15% a 25%
91 a 120EncalhadaSegunda remarcação ou combo30% a 40%
Mais de 120TravadaLiquidação, sacolinha ou doação50% ou mais

Repare que a remarcação anda de mãos dadas com a precificação inicial. Quem coloca um preço apertado demais na entrada não tem fôlego para remarcar depois sem ter prejuízo. Se a remarcação está sempre doendo, o problema pode estar lá atrás: vale rever como precificar as peças do brechó para já entrar com margem que aguenta um desconto.

Monte combos para escoar o que não sai sozinho

Tem peça que ninguém compra avulsa, mas sai fácil de carona. O combo usa isso a seu favor. Você junta uma peça desejada com uma ou duas encalhadas e vende o conjunto por um valor que parece um achado para o cliente e ainda assim escoa o que estava parado.

  1. 01Leve 3, pague 2 na arara de peças paradas: o cliente garimpa, você gira volume.
  2. 02Sacolinha fechada com mix surpresa: junta peças de baixo giro por um preço único; funciona muito em live e bazar.
  3. 03Look montado: combine a peça encalhada com uma que vende bem e venda o conjunto. A peça parada vira o complemento, não a estrela.
  4. 04Brinde por valor de compra: a partir de um ticket, o cliente escolhe uma peça da arara de encalhe. Some giro com aumento de ticket médio.

O combo tem um efeito colateral bom: ele levanta o ticket médio enquanto limpa a arara. Em vez de uma venda de uma peça, você fecha uma sacolinha. É o tipo de movimento que, somado ao longo de um mês, muda o caixa.

Use a troca de estação como liquidação natural

Existe um prazo de validade prático para a peça sazonal. Casaco e tricô que não saíram no inverno viram peso morto no verão, e o contrário também vale. A troca de estação é o momento certo para liquidar o que sobrou da temporada anterior, antes de a peça ficar fora de época e desvalorizar de vez.

No varejo de moda brasileiro, julho costuma ser o pico de liquidação de inverno e janeiro o de verão e pós-festas. Planejar essas duas janelas significa entrar nelas com a lista do que precisa sair já pronta, e não descobrir em cima da hora que metade da arara está fora de estação. Para encaixar isso no resto do ano, vale combinar com o calendário comercial do brechó, que organiza entradas, liquidações e datas comemorativas numa visão só.

Peça fora de estação que você segura por mais um ciclo raramente volta a valer o preço cheio. Liquidar no fim da temporada quase sempre rende mais que guardar para o ano que vem.

Equipe Vestto

Dê destaque ao encalhe nos seus canais

Boa parte do estoque parado não está caro, está escondido. A peça foi para o fundo da arara, nunca apareceu num story, a foto era ruim. Antes de baixar o preço, pergunte se a peça realmente teve chance de ser vista.

  • Reserve uma arara ou prateleira de promoção bem na entrada, com placa visível. O olho do cliente vai direto.
  • Faça um story ou Reels só de peças paradas, com preço na tela. "Garimpo da semana" funciona melhor que silêncio.
  • Troque a foto da capa das peças travadas: muitas só estão paradas porque a foto não vende.
  • Mude a peça de lugar e contexto: o que não saía na arara de calças pode sair num manequim montado.

Repetir a mesma peça nos canais não cansa o cliente tanto quanto você imagina; a cada semana há gente nova vendo pela primeira vez. O que cansa é a peça empoeirada que ninguém nunca viu.

O ponto cego: você só gira o que consegue enxergar

Todas as táticas acima dependem de uma coisa: saber, num relance, o que está parado e há quanto tempo. É aqui que caderno e planilha falham. Eles guardam o histórico, mas não te dão a leitura rápida de "essas 12 peças passaram dos 90 dias". Sem essa leitura, você remarca no chute, esquece metade do encalhe e só percebe o problema quando o caixa já apertou.

A saída é ter o estoque num lugar que mostre cada peça pelo status, de relance. Quando você vê o estoque organizado por status e bate o olho no que está há mais tempo sem girar, a decisão de remarcar, combinar ou liquidar deixa de ser adivinhação e vira rotina semanal de cinco minutos.

Perguntas frequentes

O que fazer com peças paradas no brechó?
Primeiro identifique o que está encalhado e há quanto tempo, usando a data de entrada de cada peça. Depois remarque progressivamente conforme o tempo parado, monte combos para escoar peça de baixo giro junto com peça desejada, aproveite a troca de estação para liquidar o sazonal e dê destaque a essas peças nos seus canais de venda.
Como girar o estoque de um brechó?
Girar estoque é fazer a peça virar venda no menor tempo possível, para o mesmo dinheiro trabalhar mais vezes no ano. Na prática: meça o tempo em estoque, defina gatilhos de remarcação por dias parados, use combos e liquidações sazonais e mantenha o encalhe visível na loja e nos canais. O segredo é agir antes de o capital travar.
Como saber quais peças estão encalhadas?
Registre a data de entrada de cada peça e ordene o estoque do item mais antigo para o mais novo. As peças no topo dessa lista, paradas há 60, 90 ou mais dias, são as encalhadas. Caderno e planilha guardam esse dado, mas não mostram fácil; um controle digital que exibe status e tempo parado entrega essa leitura em segundos.
Quando vale a pena remarcar ou fazer liquidação?
Remarcação progressiva vale a partir de 60 dias parada, em degraus (por exemplo 15% a 25%, depois 30% a 40%), em vez de um desconto único e tardio. Liquidação ampla faz mais sentido na troca de estação, para escoar o sazonal antes de virar fora de época, e em peças travadas há mais de 120 dias, onde segurar custa mais que vender barato.

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