Precificação

Como precificar peças de brechó sem errar a margem

Equipe Vestto10 min de leitura

Saber como precificar peças de brechó é a diferença entre um negócio que dá lucro e um que só roda dinheiro. No brechó cada peça é única, com um custo próprio e um estado próprio, então não dá para copiar a etiqueta da loja do lado. Quem chuta preço vive em um de dois sustos: ou cobra alto demais e a peça encalha, ou cobra barato e descobre, no fim do mês, que trabalhou de graça. Este guia troca o chute por um método simples, que você repete em cada peça e em cada nova remessa.

Por que precificar no chute custa caro

O chute parece prático no começo. Você olha a peça, lembra do que pagou, soma um valor que parece justo e pendura. O problema aparece quando o estoque cresce. Sem um método, você não consegue repetir a mesma lógica em duzentas peças diferentes, e a loja vira uma colcha de retalhos de preços sem critério. Pior: você não consegue olhar para trás e dizer se aquela faixa de preço deu certo. Precificar bem é, antes de tudo, ter um processo que você confia.

Tem ainda um custo invisível. Quando o preço sai do feeling, ele acompanha o seu humor do dia, não a realidade da peça. Numa segunda-feira cansada você baixa demais; num dia animado você sonha alto. O cliente sente essa falta de consistência, e o caixa também.

Os três custos que todo preço precisa cobrir

Antes de pensar em margem, o preço de uma peça precisa cobrir o que ela custou para você. E custo não é só o que você pagou pela roupa. São três camadas, e a maioria dos brechós só enxerga a primeira.

1. Custo de aquisição

É o que você pagou pela peça: o valor no garimpo, na feira, no atacado, ou o repasse combinado com a consignante. É o número mais fácil de saber, desde que você anote na hora. Peça que entra sem registro de custo é peça que você vai precificar de memória depois, e a memória mente.

2. Custo de preparo

Quase ninguém soma isso, e ele existe. Lavar, passar, costurar um botão, trocar um zíper, embalar. Uma peça que chega encardida e precisa de uma costura custa mais para ficar pronta do que uma que já veio impecável. Não precisa cronometrar cada peça, mas tenha uma noção do que o preparo come, sobretudo nas peças que dão trabalho.

3. Custos operacionais (rateados)

Aluguel, luz, internet, taxa da maquininha, sacola, embalagem, o que você gasta para anunciar. Esses gastos não pertencem a nenhuma peça específica, mas todas precisam ajudar a pagá-los. A conta é simples: pegue suas despesas fixas do mês e divida pelo número de peças que você vende em média. Se o brechó gasta uns R$ 1.500 por mês e vende cerca de 100 peças, são uns R$ 15 de despesa embutidos em cada venda, só de estrutura.

Markup e margem: a conta que muda tudo

Aqui mora o erro mais caro do ramo. Margem e markup parecem sinônimos e não são. Markup é quanto você multiplica em cima do custo. Margem é quanto sobra de lucro dentro do preço de venda. A confusão faz muita gente achar que está lucrando 50% quando está lucrando bem menos.

Um exemplo concreto. Você comprou uma blusa por, digamos, R$ 20 e vendeu por R$ 40. O markup foi de 100% (você dobrou o custo). Mas a margem não é 100%: dos R$ 40 da venda, R$ 20 foram custo, então o lucro bruto é R$ 20, ou 50% do preço de venda. E isso antes de descontar preparo e despesas operacionais. Quando você desconta tudo, a margem real fica menor ainda.

A regra prática: pense sempre em margem sobre o preço de venda, porque é dela que sai o seu lucro de verdade. Use o markup só como atalho para chegar no preço, sabendo que ele sempre parece maior que a margem que ele gera.

Markup aplicado e a margem que ele gera (antes de despesas operacionais)
Custo da peçaMarkupPreço de vendaMargem real
R$ 201,5x (+50%)R$ 3033%
R$ 202x (+100%)R$ 4050%
R$ 202,5x (+150%)R$ 5060%
R$ 203x (+200%)R$ 6067%

Como precificar peças de brechó passo a passo

Com os custos e a diferença entre markup e margem na cabeça, o método vira uma sequência que você repete em qualquer peça.

  1. 01Anote o custo de aquisição assim que a peça entra. Não confie na memória.
  2. 02Estime o preparo quando ele for relevante (reparo, tinturaria, costura). Some ao custo.
  3. 03Adicione a fatia das despesas operacionais rateadas por peça vendida.
  4. 04Defina a margem olhando estado, marca e demanda da peça (a tabela mais abaixo ajuda).
  5. 05Calcule o preço de forma que a margem desejada caiba dentro dele, não por cima do custo. Se quiser fazer essa conta na mão, a nossa calculadora de preço para brechó faz o cálculo de custo, despesas e margem para você (o preço final continua sendo sua decisão).
  6. 06Confira contra o mercado: a peça aguenta esse preço na sua clientela? Se sim, etiquete. Se não, reveja a margem ou o custo de aquisição da próxima compra.

Repare que o último passo é uma checagem de realidade. O preço que sai da conta é o piso saudável; o teto é o quanto o seu público topa pagar por aquela peça. Precificar é fazer esses dois números conversarem.

O que faz uma peça valer mais (ou menos)

Duas peças com o mesmo custo de aquisição podem sair por preços bem diferentes, e isso é correto. Três fatores puxam a margem para cima ou para baixo.

Estado de conservação

Uma peça nova com etiqueta sustenta uma margem que uma peça bem usada não sustenta. Seja honesto na classificação (novo com etiqueta, seminovo, usado em bom estado, com marcas de uso) e deixe o preço acompanhar. Defeito declarado abre desconto, e tudo bem: cliente de brechó valoriza transparência.

Marca e raridade

Precificar peça de marca é outro jogo. Uma jaqueta de uma grife desejada, mesmo usada, carrega um valor de mercado que uma peça sem marca não tem. Pesquise por quanto a mesma marca, no mesmo estado, está saindo em outros brechós e plataformas de segunda mão. Aqui a margem pode ir bem acima da faixa comum, porque a procura existe e a peça é escassa.

Demanda e sazonalidade

Casaco em abril vende sozinho; o mesmo casaco em dezembro encalha. A estação manda no preço. Peça da estação certa segura margem cheia; peça fora de época ou de giro lento pede um preço mais convidativo para não dormir na arara. Planejar entrada e saída por estação é metade da batalha, e quando o estoque trava, vale combinar preço com as táticas de como girar estoque parado no brechó.

Tabela de referência de margem por tipo e estado

A tabela abaixo é um ponto de partida, não uma regra. As faixas vêm do que se pratica no mercado de brechó, mas a sua margem certa depende do seu mix, da sua clientela e da sua região. Use como bússola, ajuste com a realidade da sua loja.

Faixas de margem por perfil de peça (referência de mercado, não regra fixa)
Perfil da peçaFaixa de margemObservação
Peça comum, bem usada25% a 40%Gira no preço, ticket baixo, foco em volume
Peça comum, seminova40% a 55%Bom estado sustenta um pouco mais
Peça de estação, alta demanda50% a 60%Procura aquecida segura margem cheia
Novo com etiqueta50% a 60%Sem sinais de uso, perto do varejo novo
Peça de marca desejada60% ou maisValor de mercado próprio; pesquise referências
Peça parada há mesesabaixo de 25%Remarcar para escoar vale mais que segurar o capital

Remarcação: o preço que envelhece junto com a peça

Preço não é tatuagem. Uma peça que entrou na faixa de margem cheia e passou semanas sem interesse está te dizendo algo: ou o preço está acima do que o público topa, ou a peça saiu de época. Em vez de defender o preço antigo, remarque de forma progressiva. Um primeiro corte modesto, depois um mais agressivo, e, se ainda assim travar, uma liquidação ou combo.

Para remarcar na hora certa você precisa enxergar o tempo em estoque. Saber que uma calça está parada há 60 dias muda completamente a decisão de preço. Esse acompanhamento, junto com o controle de quanto cada venda realmente deixa no caixa, é o que separa um brechó que reage de um que adivinha. Vale olhar isso ao lado do controle financeiro para brechó, porque preço e lucro andam juntos.

Erros comuns de precificação no brechó

  • Esquecer as despesas operacionais. O preço cobre o custo da peça mas não o aluguel, e o lucro some no fim do mês.
  • Confundir markup com margem. Achar que lucra 100% quando a margem real é 50%, ou menos depois dos custos.
  • Precificar tudo na mesma margem. Peça de marca e peça comum não pedem o mesmo percentual.
  • Não anotar o custo de aquisição. Sem o custo registrado, qualquer preço vira chute disfarçado.
  • Segurar preço de peça encalhada. Capital parado custa mais caro que o desconto da remarcação.
  • Copiar a tabela de outro brechó. Mix, clientela e região mudam tudo; referência ajuda, cópia engana.

Preço bom não é o mais alto nem o mais baixo: é o que cobre seus custos, deixa margem e ainda cabe no bolso de quem compra de você.

Equipe Vestto

O preço é seu, a conta precisa ser confiável

Toda a lógica deste guia depende de uma coisa: você confiar nos seus números. De nada adianta um método bonito se o custo das peças está num caderno, as despesas na cabeça e as vendas espalhadas no WhatsApp. A margem só fica visível quando faturamento, custo das peças e despesas estão no mesmo lugar, como acontece no financeiro do brechó. Esse é o ponto em que controle financeiro deixa de ser burocracia e vira a base de cada preço que você etiqueta. Se você está montando o brechó agora, dá para já começar organizado, como mostra o guia de como começar um brechó do zero.

Perguntas frequentes

Como precificar peças de brechó?
Parta do custo de aquisição da peça, some o custo de preparo e uma fatia das despesas operacionais rateadas por venda, e só então aplique a margem. A margem deve refletir estado, marca e demanda da peça. Confira o resultado contra o que sua clientela topa pagar e reveja o preço se a peça encalhar.
Qual a margem de lucro ideal de um brechó?
Não existe número único. Brechós costumam trabalhar entre 25% e 60% de margem sobre o preço de venda, como referência de mercado. Peças bem usadas ficam na ponta de baixo, peças de marca e novas com etiqueta na ponta de cima. Peça parada pede margem menor para escoar.
Como definir o preço de uma roupa usada?
Some o que você pagou, o custo de deixar a peça pronta e uma parcela das suas despesas fixas, depois aplique uma margem coerente com o estado da peça. Compare com peças parecidas no mercado de segunda mão para checar se o preço para de pé na sua região e na sua clientela.
Quanto cobrar por uma peça de marca em brechó?
Peças de marca desejada têm valor de mercado próprio, então a margem pode passar de 60%. Pesquise por quanto a mesma marca, no mesmo estado de conservação, está saindo em outros brechós e plataformas de segunda mão, e use isso como teto. Estado e raridade pesam mais que o custo de aquisição aqui.

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